AS FOCAS AMESTRADAS DE NABOKOV

→ Gargalhada na escuridão, de Vladimir Nabokov [trad. Brenno Silveira, São Paulo: Boa Leitura, s.d.]

O enredo de Gargalhada na escuridão, romance de Nabokov, é descrito por ele mesmo, já de cara nos dois primeiros parágrafos, com uma banalidade atroz:

“Era uma vez um homem chamado Albinus, que vivia em Berlim, Alemanha. Era rico, respeitável, feliz. Um dia abandonou a esposa por uma amante jovem. Amava-a; não era amado – e sua vida terminou em desastre.

Eis aí toda a história, e bem poderíamos abandoná-la neste ponto, se não houvesse vantagem e prazer em conta-la. Embora haja espaço mais do que suficiente numa pedra tumular para conter, encadernada em musgo, a versão resumida da vida de um homem, os pormenores são sempre bem recebidos”.  

Nabokov, narrador sagaz, começa então a alinhavar o enredo, se detendo com ironia num meio intelectual de artistas, escritores e músicos medíocres, oportunizado pela pretensão da amante de Albinus virar atriz de cinema. Ingênua, ignorante, ambiciosa até mesmo em querer para si a casa da esposa de Albinus, ela atinge seu auge ao conseguir que ele compre para ela como produtor um papel de coadjuvante em um filme. Ao assisti-lo na sala de testes, ela se vê como uma figura borrada e detestável, à sombra de uma outra atriz de nome ironizado pelo autor como Dorianna Karenina que é impossível a nós também não associar hoje a uma margarina, aumentando o aspecto kitsch e decadente da figura. A partir disso, ela entrega-se à devassidão com outro amante que a acompanha com Albinus em uma viagem entediante pelos Alpes, ocupando quartos contíguos numa hospedaria, que serve para seus encontros nas barbas do ricaço. O fim é patético e sarcástico. Lido hoje, o romance parece um tanto longo e se arrastar em alguns pontos, porém o senso de observação irônica de Nabokov vai se insurgindo e reside aí o maior interesse para um leitor, hoje.

A seguir, alguns trechos peculiares desse Nabokov:    

PERSONAGENS DE UM JANTAR

1. “Chegou Baum, o escritor, indivíduo corpulento, de rosto vermelho, ruidoso, com acentuadas tendências comunistas e uma renda apreciável, acompanhado da esposa, mulher já de certa idade, mas de figura ainda esplêndida, que, em sua agitada juventude, nadara num tanque de vidro entre focas amestradas”.

2. “A conversa já estava bastante animada. Olga Waldheim, cantora de braços alvos e busto volumoso, cabelos ondulados, cor de geleia de laranja, e uma gema de melodia em cada inflexão de sua voz, contava, como habitualmente fazia, histórias engraçadas a respeito de seus seis gatos persas.”

3. “Albinus, de pé no meio da sala, a rir, olhou, através do tufo de cabelos brancos de Lampert (excelente especialista em doenças da garganta e violinista medíocre), para Margot, e pensou que o seu vestido de tule negro, com aquela dália de veludo sobre o peito, lhe assentava maravilhosamente bem.”

4. “Havia um sorriso levemente defensivo nos lábios de Margot, como se ela não soubesse se estavam ou não a zombar dela, e seus olhos tinham aquela expressão muito especial de gamo novo, que significava, ele bem o sabia, que ela estava a ouvir coisas que não compreendia – naquele caso, as ideias de Lampert acerca da música de Hindemith.”

NABOKOVIANAS

“Certa vez um homem – dizia Rex, enquanto dobrava a esquina em companhia de Margot – perdeu uma abotoadura de brilhante num mar amplo e azul e, vinte anos mais tarde, no dia extato, uma sexta-feira, parece, estava comendo um grande peixe… mas não havia, dentro, brilhante algum. Eis aí o que me agrada nas coincidências.”

“–Mas por que razão, diga-me – indagou, maliciosamente, Albinus (a Rex, amante de Margot) as mulheres o aborrecem tanto?” (…) “Não! (…) A mulher, para mim, é apenas um mamífero inofensivo, ou uma companheira agradável… às vezes.”

“Vou contar-lhe um segredo: uma verdadeira atriz jamais se sente satisfeita.” “Nem tampouco o público, às vezes – replicou, calmamente, Rex.” “A propósito, minha cara: como foi que encontrou o seu nome de atriz? Ele me intriga um tanto.” “Oh, essa é uma longa história – respondeu ela, com ar pensativo. – Se algum dia o senhor for tomar chá comigo, eu talvez lhe diga algo mais a respeito dele. O rapaz que me sugeriu esse nome se suicidou.” “Ah… isso é de estranhar. Mas o que eu queria saber… Diga-me uma coisa: já leu Tolstoi?” “Doll’s Toy? – repetiu Dorianna Karenina – Não. Receio que não. Por que?”

“Por fim, no quinto hotel, foram convidados a subir pelo elevador e ver se serviam os únicos quartos disponíveis. O ascensorista, um rapazinho de tez cor de azeitona, que os conduziu, ficou com o seu belo perfil voltado para eles.”

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