Os sete pecados capitais Guimarães Rosa escreve sobre a soberba

Os sete pecados capitais

→Os sete pecados capitais. Guimarães Rosa; Otto Lara Rezende; Carlos Heitor Cony; Mário Donato; Guilherme Figueiredo; José Condé e Lygia Fagundes Telles. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.

Esse curioso livro foi publicado no mesmo ano do Golpe de 1964 pela Editora Civilização Brasileira, com apresentação do seu editor marxista Ênio Silveira que, intitulando-a “Elogio ao pecado”, tergiversou bom tempo sobre religião para finalmente dizer que, não sendo original a ideia, já amplamente explorada por editores e cineastas, certamente europeus, dada a verniz cultivada à época, se tratava de um “divertissement” com objetivo comercial para o bem-estar das algibeiras… Ele não chega a dizer se o benefício alcançava a algibeira dos escritores, mas com certeza esperava alcançar a da Editora Civilização Brasileira, que foi uma das mais importantes naquela e na década seguinte tanto em vendas quanto por seu catálogo de resistência crítica à ditadura. O senso de humor desse marxista encontra eco no primeiro e mais importante conto da coletânea, escrito por Guimarães Rosa, que, com o título “Os chapéus dos transeuntes”, ilustra a soberba na figura de um moribundo e sua numerosa família à sua volta, com muitos retornando à sua casa no interior do país para enterrá-lo. Ecoando o Grande sertão: veredas, Rosa brinca com seu “nonada” inicial começando com uma variação: “De antemão: – Não.” Outra das suas se dá quando, ao descrever o personagem, diz dele que, “de tão egocêntrico, ele se colecionava.” Esse senso de humor continua nos nomes dos personagens e em chistes como “…o capitalista em ócios Bayard Metternich Aristóteles, meu pai; e o tio Pelópidas Epaminondas, da indústria; tio Nestornestório, juiz; tio Noé Arquimedes Eneias, Nearqueneias ou Nó, no encurtado trivial, deputado”. E vai pelas mulheres e seus maridos com numerosas ressonâncias irônicas: “Além das tias: Amélia Isabel Carlota, solteirona insensata; Clotilde de Vaux Penthesileia, viúva do Almirante Contrapaz; Cornélia Vitória Hermengarda, com seu esposo, João Gastão, sem profissão; e Teresa Leopoldina Cristina, fugida e casada com Cícero M. Mamões, dito o ‘Regabofe’”. No decorrer da narrativa o moribundo morre, renasce e novamente morre descrito pelo narrador seu neto que se descreve como “nós outros, os Dandrades Pereiras Serapiães, anchos em feliz fortuna e prosápia, como as uvas que num cacho se repimpam”. Eis que após a repimpagem roseana entra-se pelo pedregulho chato dos outros contos, concluindo-se que o livro se salva mesmo pela presença do primeiro texto, de Guimarães Rosa, com sua soberba escrita que se destaca diante da preguiça de Lygia Fagundes Telles, da inveja de José Condé, da avareza de Otto Lara Rezende, da luxúria burguesa de Cony, da gula seca de Figueiredo e da ira tosca de Mário Donato. Com Rosa, destaca-se a capa de Eugênio Hirsch, peculiar.

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