A poesia do improvável

A voz do poeta espanhol Antonio Machado ecoa por Sanga lembrando que “caminhante/ caminhos há/ o mais estreito/ te leva más allá”. Funciona como um dos preceitos que ordenam esse olhar poético configurado por Pedro Carrano, que apresenta traços de suas memórias das errâncias pelas Américas do Sul e Central. Nessa época ele estava interessado nos movimentos de resistência política como o de Chiapas, em que o movimento zapatista ganhou o noticiário mundial e foi tema de suas reportagens. Che Guevara, também lembrado como um guia dessa errância por vários países, é mencionado: “Não me esperem para a colheita. Estarei sempre a semear”. Na releitura de Carrano o exílio do viajante que não semeia busca ser “a própria semente”. Daí que, quando ela brota, floresce em poemas como este haicai impactante pela síntese:

 

“milharal mexicano/ meninos correndo/ nos olhos do jaguar”.

 

México, Guatemala, Nicarágua, Bolívia, Equador, Paraguai… podem ser sintetizados no reencontro brasileiro de apenas uma imagem que remete a Oswald de Andrade: de um índio lavando os pés numa fonte que, por sua peculiaridade, se equivale na paisagem aos girassóis, que não morrem, resistem.

A epígrafe de Sanga, pinçada de A paixão segundo GH, de Clarice Lispector, sinaliza a pretensão de alcançar, com a poesia, “o inexpressivo”, “o inumano”, uma negatividade espelhada do que é translúcido no que é expresso e humano, que o permite afirmar que “posso morrer esquecido, mas meu único gesto: jamais estarei de acordo com a vida e esta forma”.

Talvez seja essa a própria “sanga”, “boca afunilada de qualquer armadilha de caça ou pesca”, que procura desviar o olhar para fora de si, do humano que se é, para a natureza (pássaros, asas), para “os cantos no corpo da madeira”, assim como para um pescador pintando seu barco ou mesmo o ouriço que se interpõe ao vago percurso dos dias.

Assim, nessa errância que já é lírica, que é vital durante a passagem do tempo, os dias que passam estão ocultos (“na gaveta/ sob a água vibrante”), dormindo numa memória que tenta o desapego mas espera ser reavivada por um outro que a reconheça e reavive. Cada instante é preciso, porém passageiro, e por isso engolido pelo tempo similar às montanhas que são iguais e parelhas e pouco mudam, mas que, nessa memória, se confundem como um invento, “esse momento quando um deus foi criado”, estranho ao “óxido passado”, que no entanto é “trespassado pela nostalgia”.

“A morte é necessária/ talvez duas por semana/ e o seu retorno de amnésia/ assim seguiremos morrendo”, dizem os versos, sugerindo que morrer é sinônimo de deixar de ver, similar à “cegueira necessária” à vida e sua travessia para alcançar a intensidade de sentidos, uma espécie de “cegueira completa/ do mar do amor… o ponto cego da minha travessia”.

Memória, nos poemas, se associa com transformação: “casas têm que ser destruídas/ para a terra seguir em frente”. A passagem do tempo é implacável: a perspectiva de tudo é transformar-se em ruína. Porém, contra isso, “a música que busco… vem de uma gana de vida”, ainda que “dentro do acaso/ perto o naufrágio/ fico a um passo/ de ser tão frágil/ como uma asa”.

A poesia, então, sintetizada da memória, se faz do improvável, como um sonho:

 

“noite na praça/ lonjura no horizonte/ o peixe beija uma estrela”.

 

CARRANO, Pedro. Sanga. Curitiba: Sendas Editora, 2017.

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