Tróiades – remix para o próximo milênio

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O ser humano tem uma notável capacidade alienante de fantasiar mundos maravilhosos e utópicos sentado sobre ruínas, que não vê, vindo daí o papel fundamental de todo artista, escritor, filósofo que não se enrede na fantasia do entretenimento: expor essas ruínas e a face nada gloriosa desse humano que, transparecendo um sorriso, mostra em verdade uma máscara. A propósito disso cabe transcrever um fragmento de um aforismo de Walter Benjamin, reordenado em poema: “Um anjo/ tenta se afastar daquilo que olha/ esbulhado boquiaberto/ e de amplas asas (…) arrastado ao futuro/ ele vai de costas/ e a pilha de ruínas à sua frente/ alcança o céu”.

Esse aforisma, agora poema, está no “poema-site” Tróiades – remix para o próximo milênio (http://www.troiades.com.br/; publicado pela Editora Patuá em 2015), criado pelo poeta e tradutor Guilherme Gontijo Flores justamente com a motivação de expor a agonia muda dos derrotados de todos os tempos, mas que chega até nossos dias, alegorizados em poemas montados a partir de fragmentos de tragédias antigas como Hécuba e Tróiades, de Eurípedes e Troades, de Sêneca. A alegoria sugere o espaço-tempo que vai de Troia a Canudos mas a deixa fica em aberto para a imaginação: pode passar por índios, seringueiros, pelo Carandiru e até mesmo chegar a esses que assistimos todos os dias sendo aniquilados nas periferias e agora também nos centros urbanos pelas polícias militares montadas como máquinas de matar no Brasil, cujo livro de Caco Barcellos, Rota 66, é um ótimo diagnóstico do seu funcionamento.

Se os vivos são sempre os vencedores, ao poeta é incabível aceitar vitória, por isso o que o movimenta é a recusa e a postura indagativa sobre o funcionamento da história. Daí a potência questionadora e provocativa dessa ação criativa perpetrada por Guilherme Gontijo Flores. Esses fragmentos são associados a fotos de vários tempos escolhidas por sua peculiaridade imagética de expressar uma espécie de eco que, vindo das tragédias gregas de 424 a.C a 64 d.C., atravessa a história da humanidade.

São impactantes fotos como a da cidade de Dresden, na Alemanha, bombardeada, arrasada e deserta em 1945; de crianças enforcadas numa árvore na Itália em 1923; de canibais durante a fome na Rússia em 1921; de índios acorrentados escravizados no século XIX ou de índios Crow mortos em 1874; do negro Will Brown linchado e cremado em 1919 por ridentes racistas norte-americanos; de uma indefesa escrava presa na Tunísia em 1900 ou de um escravo no Mississippi em 1863; da banalidade das trincheiras russas em que se avizinham com naturalidade terrível soldados vivos e soldados mortos em 1905; ou dos sobreviventes ao massacre de Canudos, em 1897, que se apinham sentados no chão, cercados por soldados e olhando humilhados para uma câmera que fazia o serviço sujo da época de registrar uma prova dos que eram vistos como bárbaros então para a sociedade que pagava o preço daquele aniquilamento e desejava a volúpia da imagem nos jornais.

A visita ao site é acompanhada pela execução da música “Genocide — Symphonic Holocaust”, do álbum Blut und Nebel (2005), de Maurizio Bianchi. Trata-se de uma música rascante, que remete ao símbolo mais excruciante do finado século XX, o do extermínio humano em modo industrial, como se a linha de montagem fordista fosse aplicada à desmontagem de corpos humanos para gerar a hiperbólica palavra holocausto.

FLORES, Guilherme Gontijo. Tróiades – remix para o próximo milênio. São Paulo: Patuá, 2015.

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