Nenhum contra Ninguém

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Em Adorável criatura Frankenstein, romance de Ademir Assunção publicado em 2004, o personagem principal era “Eu”, que tinha espasmos que iam da realidade à irrealidade por sua mente influenciada pelo star system, convivendo com outros, chamados Você, Ela, Nós… Neste novo romance o personagem-narrador é também conhecido por um pronome, “Ninguém”, igualmente às voltas com personagens de nomes tão estranhos quanto Nunca, Nada, Alguém, Silêncio, Lugar Nenhum e outros. Esse Ninguém é um poeta que, extenuado pelo tipo de vida de uma grande cidade, tal como aquele vivido por “Eu”, sai em busca de isolamento em uma praia afastada esperando que o tempo pare e almejando escrever um romance imaginando se “fortalecer na solidão”, tal como na sugerida epígrafe de Bukowski, ele mesmo antropofagiado nas derramadas cenas de sexo passadas na Praia Brava, lugar em que se passa esse romance. As intenções de Ninguém, como o Giuliano Gemma de um avesso Velho Oeste tropical, sempre pronto para sacar o dedo em lugar da arma, logo são transtornadas pela constatação de que o tempo não para, os acontecimentos não cessam de se manifestar e o ansiado romance não aparece senão em seus delírios. Tentando chegar a algum lugar, ele começa a escrever um diário como protótipo do romance desejado. No entanto isso não é suficiente para que ele tenha controle das situações e do que se chama habitualmente de “vida real”, pois passa a conviver com viralatas aos quais dá nomes que habitam sua mente, como Montana, Preta Gil, Jece Valadão… Enquanto isso, vai tendo alucinações de bucetas flamejantes e mulheres esculturais que o extenuam, além de todo tipo de personagem de livro que está lendo ou filme lembrado que, somados a escritores ou diretores, passam a coabitar e interagir com ele. Assim é que Billy Pilgrim, associado com travestis, sai do romance Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, assim como este, para coabitar com Ninguém na Praia Brava, mais Ulisses, Calipso, Circe e gente como Dante Alighieri, James Joyce, Gertrude Stein, Haroldo de Campos, Sean Penn, Francis Ford Coppolla…  Apesar disso a solidão logo o faz criar Nada e Nunca, duas exuberantes mulheres que, deixando o espaço do pretendido romance, passam a ser suas companhias misturando os espaços narrativos e integrando como uma gosma a megalomania do narrador que sonha ter seu livro adaptado para o cinema americano e ganhar 7 milhões de dólares… Entre um delírio e outro, os viralatas vão e vêm, golfinhos passam dando saltos triplos, Dante Alighieri passeia conduzindo uma onça pela coleira, Deus e Lúcifer jogam xadrez, Querubins e Serafins passam voando, jacas cadentes acontecem, peixes observadores cantam como passarinhos, aranhas tecem teias como poetas tecem poemas, extraterrestres escritores se manifestam e não à toa o narrador sugere que sua megalomania fantasiosa pode ser explicada pelo fato de que sua cabeça parece um aparelho de rádio mal sintonizado, pegando três, quatro e até cinco estações ao mesmo tempo enquanto rola no ar muita música de jazz. A errância em busca da escrita continua até chegar Alguém, versão de Ulisses, com Silêncio e Lugar Nenhum, réplicas de Circe e Calipso. Ninguém serve arroz com salsicha para Ulisses e vai para a cama com as beldades caindo em sono profundo para acordar com a volta de Nunca, que dá a ele um ácido. Ninguém se transforma num golfinho e mergulha nas águas esplendorosas da deusa que o esperava de bunda arrebitada na cama e o livro, ou a fantasia da sua escrita, chega ao ápice nessa trip, uma festa que acontece apenas na mente de Ninguém sem que ele chegue a descobrir que seu romance poderia, pós-tudo, se chamar “Nenhum” diante do esplendoroso e inesperado final como se o autor repentinamente arrancasse da tomada toda a maquinaria montada, apagando a luz na fuça do leitor.

* Este texto prefacia o livro.

Ademir Assunção. Ninguém na Praia Brava. Romance. São Paulo: Editora Patuá, 2016.

 

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