Sonhos de Kafka

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A obra toda de Kafka é marcada pelo registro da condição do ser humano moderno, submetido à opressão burocrática das instituições e à justiça como um ente aterrorizante. Sua novela A metamorfose é uma reflexão magistral sobre a fragilidade do homem comum frente a problemas cotidianos. Em meio aos seus tantos romances, ele deixou-nos vários relatos dos seus sonhos, reunidos num livro peculiar (Sonhos, Editora Iluminuras). Para
Kafka os sonhos se confundiam com a própria vida e é assim que ele um dia disse que “escrever uma autobiografia me daria grande prazer, pois seria tão fácil quanto anotar sonhos”.

Pelo que conhecemos de sua obra, seríamos induzidos a crer que seus sonhos não seriam coloridos e alegres, caracterizando-se mais por serem pesadelos dos quais se acorda “como se tivesse enfiado a cabeça no buraco errado”, dedução plausível para seus romances como A metamorfose ou O castelo. Nos sonhos de Kafka, no entanto, aparecem obras de arte, cantores, peças de teatro, Goethe cantando, como se ele estivesse mergulhado e dormindo numa profusão de fatos culturais.

Sendo a História um dos pesadelos do homem moderno, consumida como uma de suas fantasias, a de acreditar que há um processo, de que há um sentido na vida, de que o homem veio e vai para algum lugar que não o túmulo, lá está ela num sonho: a História aparece como ameaça, presente numa turba durante o cerco e na época da Comuna de Paris. Kafka, nessa Paris, sonha que está pensando “quando uma gente oriunda dos subúrbios do norte e do leste da cidade, portanto estranha aos parisienses, foi avançando em ondas até o centro da cidade e congestionando as vias de tráfego, hora após hora, meses a fio, como os ponteiros de um relógio”, esvaziando a possibilidade de pensar, pois a contingência exigia apenas agir, que, na história francesa, significa sangrar, na sinonímia da guilhotina.

Kafka sonha também com mulheres, como uma descrita nua e sem perna num quadro de Ingres, uma prostituta da qual ele aperta as coxas “sem precisar pagar por essa distração”, mas que em seguida nota que está tomada de manchas vermelhas que impregnaram seus dedos. Outra mulher se insurge com as costas inteiramente nuas, porém com a pele não muito limpa, com arranhões e uma equimose do tamanho de uma maçaneta – uma atriz que ele vê passando por cima dele, pisando no espaldar da poltrona, e que entra em cena e desempenha muito bem seu papel, virando-se para a plateia e mostrando um rosto muito puro. Nesse sonho Kafka está com o pai, que aparece quase como um dançarino por cima de um muro sobre o qual ele se rasteja atrás, de quatro e com medo de cair, sem ajuda do pai, escorregando em excrementos humanos que grudavam em seu peito.

Num baile à fantasia, o corpo de Kafka aparece tomado de fechaduras que se abriam e se fechavam, ora aqui, ora ali. Nesse sonho ele é tomado por uma voracidade por comer tudo o que encontra em vendas imundas, toda sorte de comida picante, velha e ruim – “latas de balas inteiras são esvaziadas dentro de mim como chuva de granizo” – consumindo a fantasia de desfrutar da boa saúde e do sofrimento indolor e que passa rápido.

Mas há algum senso de humor nele, quando sonha com um grupo de ginástica ao ar livre que, por algum motivo, se desentende e se desfaz em pancadaria, mas mesmo aí está Kafka em sua peculiaridade: a organização do grupo de ginástica, sua beleza ordenada com todos agindo de igual forma como num grupo de dança, num instante, noutro se desfaz de forma absurda em pancadaria.

Num de seus aforismos, ele diz que “de um certo ponto adiante não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado”, dedução que poderia ser muito útil para o sono e o sonho que é a vida na modernidade, a de entregar-se à condição de imobilidade aceitando a possibilidade de que a vida molda no homem toda sua animalidade criando monstros. Não em vão Theodor Adorno observou que em Kafka até “as deformações são precisas”.

Para Kafka, não havendo salvação, o sentido da vida está no fato de que ela termina.

→ Franz Kafka. Sonhos. Pref. Luis Gusmán, trad. Ricardo F. Henrique. São Paulo: Iluminuras, 2003.

[21/3/2012]

UM SONHO DE KAFKA

“Quando estava deitado hoje à tarde,

alguém rapidamente virou uma chave na fechadura

e por um instante senti fechaduras no corpo inteiro,

como se estivesse vestido para um baile a fantasia;

o tempo todo abriam ou fechavam uma fechadura,

ora aqui,

ora ali.”

[Diário, 30 de agosto de 1912, in: Sonhos, op. cit., p. 53]

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